Existe coisa pior do que ficar com a dúvida? Nossa! É ruim
mesmo. Pior mesmo é quando você via dormir ao lado da pessoa que jura
amor por você e ela está sonhando com outra pessoa, que não você, o
outro. Mas que outro? O outro, os outros. Vai saber o que se passa na
cabeça dessa pessoa.
Foi
assim que aconteceu com o José. Ele havia tempo que estava
desconfiado. Pensava ele, que a Flávia sua adorável e linda esposa,
estivesse tendo um caso, ela havia mudado muito, disse-me ele.
Mas,
mudado como, perguntei. Ao que respondeu: “Ela está mais pensativa nos
últimos dias, parece estar em outra vida, está com cara de boba, cara
de quem está apaixonada, ela não está normal”.
Já
havia mais de cinco anos que eles estavam casados. José beirando seus
trinta anos, Flávia com pouco mais de vinte e cinco anos. Ela não
trabalhava, portanto, passava o dia em casa, e José era gerente de uma
vídeo locadora. Eles tinham uma vida monótona, apesar da pouca idade
do casal, eles não saíam, e quando saíam arrumavam confusão. Brigas de
casal, normal, ela é muito ciumenta, dizia José. E, Flávia dizia: “Mas
é claro! Ele não pode ver outra mulher que quase quebra o pescoço!”.
É, como ela não poderia ter ciúmes? Bom, se a mulher do José fosse
feia, poderia até ser que ele estivesse procurando em outra, o que não
tinha na dele. Mas Flávia era um espetáculo de mulher.
Mas, ao
que parecia, o José, não se contentava com a mulher que tinha em casa.
Cá para nós, com tanta concorrência é difícil mesmo, falei a ele.
José
falava: “quando saímos com uma mulher bonita, as outras mulheres ficam
doidas, parecem nos desejar, ficam se insinuando, piscando, fazem cara
de safada, aí eu olho mesmo!”. Talvez, isso tenha uma explicação
plausível. Diz as más línguas que o do outro é sempre melhor. Pensando
desta maneira, é verdade, o nosso nunca presta, o nosso está vencido.
Até parece que nós homens, temos prazo de validade, que elas usam e
abusam, e depois colocam no lixo, brinquei com José. “Mas quem dera,
se fosse assim... poderíamos trocar de mulher assim como se troca de
roupa, pior que não é assim. A propaganda faz, mas faz muita
diferença. Nada melhor do que desfilar com uma mulher bonita ao nosso
lado. Eleva o nosso ego, nos faz sentir ser bonito”, disse o José.
Isso
serve para ambos os sexos, a beleza ainda é tudo em um relacionamento,
esta é a verdade. Quando se sai a procura de um parceiro, tanto o
homem quanto a mulher, tem a tendência de sempre procurar alguém que
lhe chame a atenção. Seja pelo tipo físico, seja pela boa conversa,
sempre se olha primeiro para aquele que está roubando a cena, os
metidos a serem bonitos.
No caso
do José, ele era muito, mas muito feio mesmo. E ela muito bonita, o
que dava um contraste medonho. Isso, provavelmente despertava a
curiosidade das outras mulheres. Talvez quisessem elas saber qual o
segredo de José, para estar em companhia de uma mulher tão linda. Isso
poderia ser o motivo pelo qual José era muito assediado.
O tempo
foi passando, as coisas mudando... José passou a ser seu próprio
patrão, ele já podia sair a hora que bem quisesse. Flávia passou a
trabalhar junto de José, e isso, fez com que eles ficassem o dia todo
juntos. Sendo assim, a única hora que não se viam era quando estavam
dormindo, mas mesmo assim, ainda sonhavam um com o outro. Com o tempo
começaram as discórdias, oriundas do desgaste sofrido pela constante
convivência do casal.
No
início de sua vida de empresário, José não estava acostumado com a
vida mansa, ele preferia trabalhar e trabalhar, já a Flávia passou a
freqüentar shoppings, saía e saía, ela havia conquistado sua liberdade
financeira, eles haviam se tornados grandes empresários. José
trabalhando e Flávia gastando. Assim se seguiu por um tempo, até que
José decidiu que não trabalharia como antes, cuidaria apenas da parte
administrativa da empresa, e então passou a ficar mais tempo em casa.
Para surpresa de José, começaram novamente as desavenças. Flávia
queria espaço, queria liberdade. José ficou sem entender absolutamente
nada. Quando trabalhavam juntos, eles viram que não dava certo, havia
um desgaste tremendo. Ele achava que ficando em casa com a Flávia
poderia ser diferente, trabalhou muito para conquistar esta liberdade
que todo casal procura. José não entendeu porque a sua presença estava
sendo motivo de briga entre eles, tem algo de estranho com ela, dizia
ele.
Em uma
tarde ele chegou em casa sem que a avisasse, e o carro de Flávia não
estava na garagem, ela havia saído. Ele então ligou para o celular
dela e, segundo ela, estava no shopping fazendo compras. José entrou
no banheiro e ficou pensando: “essa mulher está meio estranha... está
evidente que tem alguma coisa de errado no ar!” A dúvida estava
perturbando cada vez mais o José. Ele não sabia o que fazer para
descobrir o que sua esposa estava fazendo, se estava falando a verdade
se estava escondendo algo.
No
início do casamento as poucas vezes que saiam, era sempre de mãos
dadas como namorados, agora eles saem como se fossem amigos. “Parece
que acabou o amor”, resmungava o José. Parece que ela estava com
vergonha de sair com ele. José já não era mais aquele príncipe que ela
tinha fantasiado em sua mente. Ela já não tinha mais ciúmes dele.
Antes era uma frescura total, ciúme de tudo, até na hora daquelas
cenas de sexo que passa nas telenovelas, ela tampava os olhos dele,
ele não podia olhar para os lados que a confusão estava armada. “Agora
é tudo diferente”, disse ele.
“Será
que acabou o amor?” Perguntou-me José. Provavelmente sim, mas não o
amor, e sim o tesão por ele, respondi. José reconheceu que deixou o
casamento cair na monotonia, e com a ação do tempo, as coisas mudam
mesmo, não há amor que resista, surgem novas amizades, novas
descobertas. Ela havia conquistado a sua liberdade, ali, diante dos
olhos dele, e ele não havia percebido que a sua mulher estava livre há
tempos. Enquanto ele trabalhava, ela estava curtindo a vida de casada,
mas curtindo como mulher solteira. Lamentavelmente ele havia
descoberto tarde demais. Era o fim do casamento. Estavam vivendo
juntos, mas como irmãos, não tinha mais o calor, o tesão. É fato, não
existe relação que agüente muito tempo sem o tesão. Eles chegaram a
ficar mais de dois meses sem manter relação sexual. Não havia mais
interesse um no outro, disse José.
Outro
dia, Flávia me revelou o que havia acontecido. Segundo ela, o seu
tesão por José começou a diminuir desde os tempos em que eles
começaram a trabalharem juntos, para ela aquilo foi o fim, ficar 24
horas, juntos. A vida do casal estava muito parada, e para completar,
José já não dava mais atenção a ela, só pensava em trabalhar. Quando
estavam juntos na loja, ele a tratava como funcionária, não como
esposa, e isso definitivamente contribuiu radicalmente para o fim
daquele casamento.
José,
no entanto, não cultivou os rudimentos do amor: a paixão, atenção,
carinho, afeto, cumplicidade, auto-estima e o tesão. Ele havia
contribuído e muito, para o fim de seu relacionamento, ele deixou
brechas para outro invadir o coração de Flávia, infelizmente.
Ainda
quando trabalhavam juntos, Flávia conheceu uma pessoa em um shopping.
Tiveram algo, mas ela me revelou o que aconteceu, apenas se limitou a
dizer que havia se apaixonado por ele, e que ele havia lhe mostrado o
calor que ela tanto procurava no relacionamento... no casamento, e
devido a isso, ela não conseguia tirá-lo da cabeça, sonhava com ele
desde aquele dia, não havia possibilidade alguma de continuar casada
com José, revelou.
Quando
José soube que era irreversível aquela separação, ele ficou
completamente abalado, ele amava de verdade a Flávia. Ele gritava:
“Flávia eu te amo! Não faça isso comigo!” Mas foi inútil. Flávia havia
se apaixonado por outro, seu coração não mais pertencia a José. Que
triste! É duro, que vida dura. Sempre pensei que o amor significasse:
vida, vida nova, novos rumos à vida do ser humano. Mas ele mata, ele
mata por dentro. O que acabou com José foi o abandono, talvez se
Flávia, mesmo estando com o outro, tivesse dado um mínimo de atenção
para José, não haveria acontecido uma tragédia. José tentou suicídio,
de posse de uma faca, ele tentou contra sua própria vida. E graças a
Deus ele não conseguiu seu intento. “Este é o preço que se paga por
não saber dar valor ao amor?” Perguntava-me José no hospital.
José,
que sorte! Nasceu de novo.
Extraído de: Lima, Edilmar Crônicas de um Detetive