Página inicial
 O livro
 Biografia
 Perfil
 Fotos
 Vídeos
 Release
 Crônicas
 Imprensa
 Agenda
 Palavras do autor
 Promoções
 Sites indicados
 Recados
 Radio On-line
 Fale conosco

 

 

A dúvida acaba o relacionamento

Por Edilmar Lima

             Existe coisa pior do que ficar com a dúvida? Nossa! É ruim mesmo. Pior mesmo é quando você via dormir ao lado da pessoa que jura amor por você e ela está sonhando com outra pessoa, que não você, o outro. Mas que outro? O outro, os outros. Vai saber o que se passa na cabeça dessa pessoa.

            Foi assim que aconteceu com o José. Ele havia tempo que estava desconfiado. Pensava ele, que a Flávia sua adorável e linda esposa, estivesse tendo um caso, ela havia mudado muito, disse-me ele.

            Mas, mudado como, perguntei. Ao que respondeu: “Ela está mais pensativa nos últimos dias, parece estar em outra vida, está com cara de boba, cara de quem está apaixonada, ela não está normal”.

            Já havia mais de cinco anos que eles estavam casados. José beirando seus trinta anos, Flávia com pouco mais de vinte e cinco anos. Ela não trabalhava, portanto, passava o dia em casa, e José era gerente de uma vídeo locadora. Eles tinham uma vida monótona, apesar da pouca idade do casal, eles não saíam, e quando saíam arrumavam confusão. Brigas de casal, normal, ela é muito ciumenta, dizia José. E, Flávia dizia: “Mas é claro! Ele não pode ver outra mulher que quase quebra o pescoço!”. É, como ela não poderia ter ciúmes? Bom, se a mulher do José fosse feia, poderia até ser que ele estivesse procurando em outra, o que não tinha na dele. Mas Flávia era um espetáculo de mulher.

            Mas, ao que parecia, o José, não se contentava com a mulher que tinha em casa. Cá para nós, com tanta concorrência é difícil mesmo, falei a ele.

            José falava: “quando saímos com uma mulher bonita, as outras mulheres ficam doidas, parecem nos desejar, ficam se insinuando, piscando, fazem cara de safada, aí eu olho mesmo!”. Talvez, isso tenha uma explicação plausível. Diz as más línguas que o do outro é sempre melhor. Pensando desta maneira, é verdade, o nosso nunca presta, o nosso está vencido. Até parece que nós homens, temos prazo de validade, que elas usam e abusam, e depois colocam no lixo, brinquei com José. “Mas quem dera, se fosse assim... poderíamos trocar de mulher assim como se troca de roupa, pior que não é assim. A propaganda faz, mas faz muita diferença. Nada melhor do que desfilar com uma mulher bonita ao nosso lado. Eleva o nosso ego, nos faz sentir ser bonito”, disse o José.

            Isso serve para ambos os sexos, a beleza ainda é tudo em um relacionamento, esta é a verdade. Quando se sai a procura de um parceiro, tanto o homem quanto a mulher, tem a tendência de sempre procurar alguém que lhe chame a atenção. Seja pelo tipo físico, seja pela boa conversa, sempre se olha primeiro para aquele que está roubando a cena, os metidos a serem bonitos.

            No caso do José, ele era muito, mas muito feio mesmo. E ela muito bonita, o que dava um contraste medonho. Isso, provavelmente despertava a curiosidade das outras mulheres. Talvez quisessem elas saber qual o segredo de José, para estar em companhia de uma mulher tão linda. Isso poderia ser o motivo pelo qual José era muito assediado.

            O tempo foi passando, as coisas mudando... José passou a ser seu próprio patrão, ele já podia sair a hora que bem quisesse. Flávia passou a trabalhar junto de José, e isso, fez com que eles ficassem o dia todo juntos. Sendo assim, a única hora que não se viam era quando estavam dormindo, mas mesmo assim, ainda sonhavam um com o outro. Com o tempo começaram as discórdias, oriundas do desgaste sofrido pela constante convivência do casal.

            No início de sua vida de empresário, José não estava acostumado com a vida mansa, ele preferia trabalhar e trabalhar, já a Flávia passou a freqüentar shoppings, saía e saía, ela havia conquistado sua liberdade financeira, eles haviam se tornados grandes empresários. José trabalhando e Flávia gastando. Assim se seguiu por um tempo, até que José decidiu que não trabalharia como antes, cuidaria apenas da parte administrativa da empresa, e então passou a ficar mais tempo em casa. Para surpresa de José, começaram novamente as desavenças. Flávia queria espaço, queria liberdade. José ficou sem entender absolutamente nada. Quando trabalhavam juntos, eles viram que não dava certo, havia um desgaste tremendo. Ele achava que ficando em casa com a Flávia poderia ser diferente, trabalhou muito para conquistar esta liberdade que todo casal procura. José não entendeu porque a sua presença estava sendo motivo de briga entre eles, tem algo de estranho com ela, dizia ele.

            Em uma tarde ele chegou em casa sem que a avisasse, e o carro de Flávia não estava na garagem, ela havia saído. Ele então ligou para o celular dela e, segundo ela, estava no shopping fazendo compras. José entrou no banheiro e ficou pensando: “essa mulher está meio estranha... está evidente que tem alguma coisa de errado no ar!” A dúvida estava perturbando cada vez mais o José. Ele não sabia o que fazer para descobrir o que sua esposa estava fazendo, se estava falando a verdade se estava escondendo algo.

            No início do casamento as poucas vezes que saiam, era sempre de mãos dadas como namorados, agora eles saem como se fossem amigos. “Parece que acabou o amor”, resmungava o José. Parece que ela estava com vergonha de sair com ele. José já não era mais aquele príncipe que ela tinha fantasiado em sua mente. Ela já não tinha mais ciúmes dele. Antes era uma frescura total, ciúme de tudo, até na hora daquelas cenas de sexo que passa nas telenovelas, ela tampava os olhos dele, ele não podia olhar para os lados que a confusão estava armada. “Agora é tudo diferente”, disse ele.

            “Será que acabou o amor?” Perguntou-me José. Provavelmente sim, mas não o amor, e sim o tesão por ele, respondi. José reconheceu que deixou o casamento cair na monotonia, e com a ação do tempo, as coisas mudam mesmo, não há amor que resista, surgem novas amizades, novas descobertas. Ela havia conquistado a sua liberdade, ali, diante dos olhos dele, e ele não havia percebido que a sua mulher estava livre há tempos. Enquanto ele trabalhava, ela estava curtindo a vida de casada, mas curtindo como mulher solteira. Lamentavelmente ele havia descoberto tarde demais. Era o fim do casamento. Estavam vivendo juntos, mas como irmãos, não tinha mais o calor, o tesão. É fato, não existe relação que agüente muito tempo sem o tesão. Eles chegaram a ficar mais de dois meses sem manter relação sexual. Não havia mais interesse um no outro, disse José.

            Outro dia, Flávia me revelou o que havia acontecido. Segundo ela, o seu tesão por José começou a diminuir desde os tempos em que eles começaram a trabalharem juntos, para ela aquilo foi o fim, ficar 24 horas, juntos. A vida do casal estava muito parada, e para completar, José já não dava mais atenção a ela, só pensava em trabalhar. Quando estavam juntos na loja, ele a tratava como funcionária, não como esposa, e isso definitivamente contribuiu radicalmente para o fim daquele casamento.

            José, no entanto, não cultivou os rudimentos do amor: a paixão, atenção, carinho, afeto, cumplicidade, auto-estima e o tesão. Ele havia contribuído e muito, para o fim de seu relacionamento, ele deixou brechas para outro invadir o coração de Flávia, infelizmente.

            Ainda quando trabalhavam juntos, Flávia conheceu uma pessoa em um shopping. Tiveram algo, mas ela me revelou o que aconteceu, apenas se limitou a dizer que havia se apaixonado por ele, e que ele havia lhe mostrado o calor que ela tanto procurava no relacionamento... no casamento, e devido a isso, ela não conseguia tirá-lo da cabeça, sonhava com ele desde aquele dia, não havia possibilidade alguma de continuar casada com José, revelou.

            Quando José soube que era irreversível aquela separação, ele ficou completamente abalado, ele amava de verdade a Flávia. Ele gritava: “Flávia eu te amo! Não faça isso comigo!” Mas foi inútil. Flávia havia se apaixonado por outro, seu coração não mais pertencia a José. Que triste! É duro, que vida dura. Sempre pensei que o amor significasse: vida, vida nova, novos rumos à vida do ser humano. Mas ele mata, ele mata por dentro. O que acabou com José foi o abandono, talvez se Flávia, mesmo estando com o outro, tivesse dado um mínimo de atenção para José, não haveria acontecido uma tragédia. José tentou suicídio, de posse de uma faca, ele tentou contra sua própria vida. E graças a Deus ele não conseguiu seu intento. “Este é o preço que se paga por não saber dar valor ao amor?” Perguntava-me José no hospital.

            José, que sorte! Nasceu de novo.

Extraído de: Lima, Edilmar  Crônicas de um Detetive

Trecho do livro "Crônicas de um Detetive", de Edilmar Lima.
É vedada a reprodução sem prévia autorização.

 

 

"O amor é, de certo, a melhor arma de destruição em massa. Entretanto, todos nós fazemos parte de um exército que tem o coração como arma. Matamos... Morremos... Pelo amor e não pelo ódio." (Edilmar Lima)


Copyright @ 2004 by Edilmar Lima - Todos os direitos reservados.
Proibido a reprodução sem prévia autorização.