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Traição ou Infidelidade?

 Por Edilmar Lima

 

Há poucos anos, fui contratado pela Srtª. Núbia de 24 anos, que estava completando oito meses de casamento com Ricardo de 28 anos. Um casal jovem e bonito, para todos aparentavam ser um casal feliz, mas a realidade era outra. Ela, muito desconfiada, me procurou para tirar algumas dúvidas com relação ao marido. Como de praxe, o encontro no escritório é fundamental para que se possa ter privacidade; marcamos um horário e assim foi feito.

Antes mesmo da hora marcada, Núbia já estava na sala da recepção. Pude vê-la através da câmera e como desde o início eu já sentenciava, afirmei em pensamento: ela está com um problema e tanto. Assim que Núbia entrou em minha sala, pude perceber que estava mais tranqüila por estar ali, pronta para resolver o problema que para mim ainda era apenas especulação. Quando começamos a consulta, Núbia se abriu e contou o que de fato a perturbava, pouco menos de meia hora de conversa eu já havia chegado à conclusão, mas seria antiético falar antes de realizar as diligências.

Perguntei se ela já tinha alguma suspeita, ela me afirmou que não, disse que o esposo estava completamente mudado de uns dias pra cá, o que a levou a suspeitar que ele poderia estar tendo um caso. Não tinham muitos amigos, moravam há pouco tempo em Brasília. Vieram de São Paulo ela, o esposo e a irmã mais nova de Núbia, Aline de 19 anos. Moravam todos no mesmo apartamento. Aline havia passado em um concurso público em data que antecedeu a vinda da irmã para Brasília e para não morar sozinha, achava por bem morar com Núbia e Ricardo. Não viram nada demais em a irmã de Núbia ir morar com eles, ela passaria a maior parte do tempo estudando, pouco ficaria em casa, pensavam. Mas quando começaram a conviver juntos, perceberam que não foi uma boa idéia. Afinal, recém-casados, precisavam de liberdade, e de certa forma a presença da irmã estava tirando a liberdade do casal. Para Núbia, a irmã era uma moça inocente, e nem passava pela sua cabeça o que a irmã seria capaz de fazer.

Não passou muito tempo e Aline começou a namorar Aroldo. Ela o conheceu no cursinho de Inglês, saía quase todos os dias e voltava sempre tarde, até que um dia, Ricardo demonstrou preocupação com Aline. Falou-lhe não ser seguro ela andar até tarde da noite por aí. Diante da constante preocupação de Ricardo, Aline achou melhor evitar chegar tarde em casa.

Ricardo ainda assim não estava satisfeito com as saídas da cunhada, começou a colocar defeito no namorado. Falava que ele era feio e velho, e que Aline conseguiria alguém melhor. Núbia não achou nada demais a preocupação de Ricardo com Aline, pois ela estava sob responsabilidade dos dois. Para Núbia a preocupação de Ricardo era normal, mas para Aline não. Ela achava que Ricardo estava com ciúmes, isso sim. Foram pouquíssimas vezes que o namorado de Aline subira ao apartamento, mas o estranho é que o Ricardo praticamente ficava escondido no quarto, evitava ao máximo qualquer contato com o namorado de Aline.  Sempre com a mesma desculpa de que não ia com a cara do Aroldo. Elas perguntavam o porquê, mas ele não lhes respondia.

Eu imaginei que Ricardo poderia estar tendo um caso com Aline, irmã de sua esposa, não lhe falei nada, apenas pensei. Não demorou muito, dois dias e pronto, flagrei o mocinho entrando em um motel da cidade com a amante. O que me surpreendeu foi ele estar traindo Núbia em pouco tempo de casado, ela uma mulher bonita e jovem, tinha tudo que um homem procura em uma mulher, sensualidade, charme, inteligência e supostamente fiel. Neste momento pensei em voz alta: o que levaria Ricardo a trair aquela linda mulher. Descobrimos também que a amante de Ricardo era nada mais nada menos que a filha de Aroldo, namorado da irmã de Núbia sua esposa. Talvez por isso ele teria feito de tudo para acabar com o namoro de Aline, pois logo toda a verdade poderia vir à tona com as idas e vindas de Aroldo em sua casa.

Aprendi que detetive jamais pode se deixar envolver com sentimentos, e que a traição está onde menos se espera, às vezes está dentro de casa, na casa ao lado, no trabalho, na escola, na faculdade, no cursinho, enfim... Está em quase todos os lugares. Conviver com a desconfiança é outra tarefa ainda mais difícil que se possa imaginar, eu ainda acho que o possível remédio para a desconfiança é a busca incessante da verdade; pode ser que estejamos errados ou não, a surpresa pode ser bem maior do que estávamos preparados para receber, é relativo, em alguns casos, o cliente procura até ajuda profissional como terapeutas e psicólogos para superar o problema.

Não basta apenas ter coragem de contratar um detetive para saber a verdade, tem de estar pronto para enfrentar a realidade que está por vir. 

Extraído de: Lima, Edilmar  Crônicas de um Detetive  página 047, Brasília: CUFDB  2003

Trecho do livro "Crônicas de um Detetive", de Edilmar Lima.
É vedada a reprodução sem prévia autorização.

 

 

"O amor é, de certo, a melhor arma de destruição em massa. Entretanto, todos nós fazemos parte de um exército que tem o coração como arma. Matamos... Morremos... Pelo amor e não pelo ódio." (Edilmar Lima)


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